Sunday, November 19, 2006

Jung para petralhas - mandem o Kaiser ler isto!



Lendo a obra de C.G.Jung, encontramos, invariavelmente, referência à palavra enantriodromia, que significa correr na direção oposta. É um conceito que remonta a Heráclito (atenção petralhas: não é o senador que vive às turras com a adorável Ideli!). Bem assimilado, é a chave da glória, a vacina perfeita contra a intoxicação da Língua de Pau. Sabem aquela situação em que alguém lê não pise a grama, numa tabuleta de jardim, e, ato contínuo, sente o irresistível desejo de fazer exatamente o contrário do que diz o texto? A criatura está sob o domínio da enantiodromia e faz parte do numeroso grupo das pessoas "do contra", aquelas que reagem de forma irrefletida, entregues a impulsos inconscientes. Afinal, refletir é distanciar-se: ninguém consegue se ver direito no espelho sem manter um mínimo de distância.
Em breve, voltaremos ao tema, em mais um capítulo de nossa campanha converta um petralha neste verão. Por enquanto, curtam esta do Carlinhos, espetacular:

"Se considerarmos que nem todo homem mora psiquicamente numa concha de caracol, ou seja, que não vive longe dos demais e que seu ser inconsciente se acha ligado a todos os outros homens, então um crime nunca pode ocorrer de maneira isolada como pode parecer à consciência. Ele ocorre num âmbito bem mais vasto.

A sensação de todo crime provoca o interesse apaixonado pela perseguição e julgamento do criminoso, demonstrando que todo mundo, desde que não seja insensível ou apático, é excitado pelo crime.

Platão já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma em mal, na medida em que acende o mal na própria alma. O assassinato acontece, dessa forma, dentro de cada um e de todos. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção.

A esperança crescente no Estado não é um bom sintoma e significa na verdade que o povo está a caminho de se transformar num rebanho, o qual sempre espera de seus pastores um bom pasto. Logo o cajado do pastor se converte em vara de ferro e ele, o pastor, em lobo. Foi essa a impressão que se teve ao ver toda a Alemanha respirar aliviada diante de um psicopata megalomaníaco que disse: 'Eu assumo a responsabilidade'. Quem ainda tem algum instinto de autopreservação sabe que apenas um impostor pode assumir a responsabilidade pela existência do outro. Quem tudo promete e nada cumpre está em vias de se valer de expedientes escusos para cumprir a promessa feita, ou seja, manter a impostura, abrindo o caminho para uma catástrofe.(...)

Todos esses sintomas, a completa cegueira acerca do próprio caráter, a admiração auto-erótica de si mesmo, a depreciação e atormentação dos demais (com que desprezo Hitler falava de seu povo!), a projeção da própria sombra, a falsificação mentirosa da realidade, 'o querer impressionar' e se impor, os blefes e imposturas, reúnem-se naquele homem que foi dado clinicamente como histérico mas que um destino curioso transformou durante doze anos no expoente político, moral e religioso da Alemanha. Será isso um mero acaso? "
(C.G. Jung, in: Aspectos do drama contemporâneo, Vozes)

Carlinhos é um clássico, percebem? No sentido da genialidade, da nomeação precisa dos arredores psíquicos. Há algo mais atual do que essas palavras? Delenda Banânia...

Marx, o Groucho

3 comments:

Zappi said...

Excelente o post! Parabéns.

Claudia said...

Marx, bom dia!

Vc anda inspiradíssima! Continuo sem conseguir converter alguém...meus argumentos não alcançam a 'inteligência' petralha. Talvez no inverno, quando as feras hibernam, eu tenha algum sucesso...

Enquanto isso, in bullshitland, nos brinde com alguns clássicos para some soul cleansing :-)
Beijos

Anonymous said...

Maravilhoso, vcs deveriam publicar este blog!!!