Tuesday, November 21, 2006

Da barbárie à decadência, sem escalas...


( Imagem: Jeremias de Michelangelo, detalhe do teto da Capela Sistina, evoca a melancolia. Ver também: Dürer - "Melancolia" e o Heráclito-Michelangelo de Rafael na "Escola de Atenas")

Quem gosta de ópera, ou de clássicos, sabe que o conhecimento e o gosto por tal cultura não é instintivo. Para gostar de uma ópera é preciso acostumar-se com ela, conhecer a história e ouvi-la várias vezes. Não é um conhecimento fácil, assim como não é fácil compreender a arte barroca. São saberes difíceis, que exigem concentração, recolhimento profundidade. Não é para qualquer um no sentido de que nem todos buscam, mas é para qualquer um na medida em que todos podem ter.
Os patrulheiros de plantão diriam que isso é coisa da Zelite. Pode ser, mas não se trata de uma elite financeira, mas sim de pessoas que cultivam a beleza, o recolhimento. As pessoas atualmente só querem o que é fácil, rápido, que não exija recolhimento e silêncio.
O estudo de tais artes promove um indivíduo capaz de crítica, mas principalmente, capaz de ter senso estético. Alguém que leia Balzac, Wilde, Proust, não é capaz de falar aos berros num restaurante, coçar o saco, enfim, agir como um símio. As letras clássicas são um antidoto contra a grosseria e a vulgaridade.
Pois bem, vários livros fundamentais para o conhecimento nunca chegaram ao Brasil. Nosso primeiro doutorado em História da Arte tem apenas dois anos, e nasceu de um esforço particular dos professores da UNICAMP.Seria fundamental que houvesse no Brasil uma editora como a Fondo de Cultura do México que tem um maravilhoso catalogo de clássicos. Quase sempre me sirvo desta editora ( principalmente pelos preços acessíveis )para comprar livros de que preciso.Enquanto isso, as cartilhas de segundo grau são todas sobre espoliação, não importa qual a matéria (existe um post antigo meu sobre isso, o susto que tomei ao olhar as cartilhas de segundo grau de história e filosofia - está embaixo do post " consumatus est"), o governo investe fortunas em livros e cartilhas que falam todos a mesma coisa! Letras clássicas e boa educação viraram artigos politicamente incorretos, coisas da Zelite. O certo agora é ler livros fáceis da esquerda, nada de Weber, que é muito difícil ( aliás, nada de Marx, é muito caudaloso - os livros não podem ter muito mais do que 100 páginas-), Proust é coisa de desocupado rico e boa educação, delicadeza, gentileza são valores vilipendiados e associados à Zelite.
A tal poderosa da minha universidade, que é extremamente grosseira, já me disse várias vezes: eu sou grossa mesmo, sou de esquerda (sic), boa educação é coisa de gente fraca, em cima do muro. Gente riquinha que não deveria estar aqui... nunca consegui discutir com ela, está além da minha capacidade. Da última vez tive um ataque de choro e vomitei. Eu aprendi cedo a jamais gritar ou ser estúpida com os outros. Essas armas eu não tenho. Portanto eu perco, perco sempre.
Esses são os valores que agora imperam no Brasil. Estamos nos tornando um povo grosseiro, identificado com o que há de pior e vulgar, nivelado por baixo. Esta gente, que fala tanto em construir um país melhor, está transformando nosso povo numa massa de ignorantes incapaz de competir internacionalmente. Quem perde são os poucos intelectuais sérios, que precisam buscar educação e livros fora do país, a peso de ouro.
Conheci um menino de rua na Argentina, ele citava Borges e conhecia Gardel, tinha orgulho de sua cultura. Os nossos meninos mal sabem falar.
Nós não devemos nos enganar: nosso povo está se tornando mais grosseiro do que já era. Com isso está se tornando mais animalesco e mais agressivo. O pouco valor que se dá a vida hoje é conseqüência direta da falta de cultura, da falta de cultivo.
Um povo cultivado é naturalmente mais civilizado e menos agressivo.
Não sei quem disse isso, mas concordo: o Brasil está passando da barbárie à decadência, sem escalas.
Oriane

2 comments:

Claudia said...

Oriane, o que dizer? Antes eu pensava que estávamos numa roller-coaster, que ainda havia uma subida aqui e ali, recuperávamos o fôlego para logo depois despencar novamente.
Mas não é mais assim não, é descendo sem freios, sem esperança, rumo a um abismo sem fim - a ignorância.

Eu vivo com um pianista clássico que, antes da música, estudou arquitetura. Estudei alguns anos de desenho industrial para depois partir para RI.
Para pessoas como nós, a 'zelite' odiada por estes seres doentios, isso tudo é um estupro, uma violência sem igual. Eu me sinto violada, invadida por toda esta raiva, esta pobreza espiritual e intelectual, esta cegueira.
Estamos num caminho sem volta e sinto muito não conseguir enxergar uma luz nesta caverna.
Compartilho de sua tristeza e de sua frustração.
Abraços

Bruna said...

Excelente isso que escreveu. Faço pós-graduação em uma universidade pública e entendo perfeitamente o que vc diz. É o império da burrice. Ser rico é pecado; cultivar o espírito, crime capital. Dois exemplos recentes que me chocaram nesse meio: 1- Um colega com quem trabalhei em projetos culturais interessantes parou de me cumprimentar desde que mandei textos de Reinaldo Azevedo para o canal de comunicação virtual dos estudantes (para rir ou chorar?).
2- Projeto de mestrado recusado pela FAPESP. Razões alegadas vão muito além do absurdo. O parecerista (anônimo, identidade predileta dos covardes e incompetentes) usou a oportunidade para caluniar o orientador do projeto, intelectual reconhecido e veemente crítico do governo lulla -emblema, penso eu, de tudo o que vc diz.
A vida, nas mãos deles, deixa de ser um símile do Purgatório para tornar-se pura figura do Inferno. Deus nos livre!
Fiquei contente em ter chegado ao seu blog.
Abraços.