Friday, November 17, 2006

Desabafo sobre os burocratas da academia.


Hoje tive mais uma idéia dos meandros da ignorância. Eu faço pós-graduação numa universidade pública. Havia lá um grupo de alunos que dominava inteiramente a representação dos alunos. Dominava também a distribuição de bolsas através do conselho da comissão. Não conseguian isso porque eram os melhores, mas porque eram truculentos, conheciam a burocracia e pareciam ter um enorme tempo livre. Perseguiam professores e colegas que não concordavam com o que eles achavam ser o certo. Passaram a ter um enorme poder em nosso departamento. Fui a uma reunião e tinha até um militante do PSTU dando instruções a essas pessoas de táticas de intimidação etc. Recebia dezenas de emails dessas pessoas por dia, falando sempre coisas inúteis e agressivas; em geral, falavam sempre mal de alguém. Eu sempre me perguntava como eles tinham tanto tempo para escrever - Nossa profissão demanda muito estudo e recolhimento - como eles tinham tanto tempo para fofoca? Eles nunca foram muito bons na nossa profissão. A mulher que comanda essa gente é a cara da Marilena Chauí, só que mais feia e mais revoltada, e suas intervenções em congressos sõa bizonhas e risíveis. As pessoas, de outros departamentos sempre comentam os absurdos que ela fala. Mas ela está lá, em todos os congressos, e sempre descola uma verbazinha para ir.
Na universidade de hoje, premia-se a produção, não importa se é boa ou ruim. Publicações, congressos, livros etc, estas coisas são pontuadas. Essas pessoas são especializadas nos meandros burocráticos. Não entendem nada do que fazem, não estudam, não são sérias. Mas publicam um monte de lixo e vão a congressos, todos eles, e sempre conseguem financiamento para ir de avião e ter suas despesas pagas. A pontuação deles na Capes é alta, embora a produção seja ridícula. Muita gente boa não se sente à vontade para publicar se não tiver o que escrever. Eles publicam qualquer coisa para pontuar. Nos tais emails vi pérolas inesqucíveis como: vc não tem estofo para me contestar, tenho vários seminários e publicações nas costas e vc?" Vi este argumento várias vezes. Essas pessoas se acham geniais. O mesmo argumento usa Sader para se defender. Ele escreveu 70 livros. Agora sabemos que grande parte foi descolando uma verba aqui, outra ali.
São pessoas especializadas nisso, não na profissão que escolheram, mas nos labirintos burocráticos do poder. E não hesitam, nem por um minuto, em atacar quem é melhor que eles. Eles não querem os melhores, apenas os iguais. Eles já pleitearam e, durante algum tempo conseguiram, que só se desse bolsa aos mais pobres, desprivilegiando o mérito acadêmico, fundamental numa boa pós-graduação.
Não me espantou que essas mesmas nulidades me mandassem um manifesto falando da afronta que sofreu o "cumpanheiro" Sader. Faz sentido. São da mesma turma. Sader também viceja na nulidade, especializando-se em descolar verbas públicas para fazer seus panfletos estúpidos. Dinheiro que poderia ser gasto em verdadeiro conhecimento. Nos departamentos de Universidades públicas essas pessoas são maioria, pois conhecem, como ninguém, o que fazer para alcançar a pontuação máxima. A tal projeto de Marilena Chauí da minha universidade moveu céus e terras para que fosse escolhido um ponto que favorecesse seu marido para a entrada no doutorado.
É isso. Essa é a situação de nossa universidade: pesssoas despreparadas e recalcadas, viciadas no discurso da espoliação, que não têm profundidade mental para o necessário recolhimento que a vida acadêmica requer. Desconfio muito de colegas que enchem a boca para dizer que publicaram não sei quantos livros e artigos. Se é para ser como Sader, 70 livros e nada que preste, estou fora.
Está acontecendo isso na universidade, os bons estão sendo substituídos por estas nulidades, estúpidas profissionalmente e pessoalmente, mas especialistas em burocracia. Vários colegas em outros departamentos estão reclamando disso. Todos sofrem perseguição ou alguma espécie de patrulha. Os bons estão sendo expulsos por estes projetos de burocratas cretinos. Tenho uma amiga que sofre perseguição - porque é linda, competente e rica - por parte da chefe de departamento (incrível, essas pessoas sempre estão na chefia!), que é feia, pobre e incompetende e não consegue suportá-la por isso. Todos percebem, mas ninguém fala nada. A dita cuja tem "puder". Além do mais, ser rico é considerado uma espécie de pecado mortal.
Isso está acontecendo não só na Universidade, mas em todas as esferas da vida pública. O aparelhamento e a burocracia substituem a competência e nosso país vai pelo ralo.
É de chorar.

Oriane

3 comments:

Claudia said...

Oriane, gostaria de repodruzir seu texto no Connaction. Até lhe enviei um e-mail sobre isso.

Me diga se está ok.

Beijos

Nemerson Lavoura said...

Cheguei aqui através do link da Clau, e gostaria de (também) te pedir permissão para reproduzir o texto em meu blog.
Ele é simplesmente genial!

Anonymous said...

Oriane cara,
um dos maiores responsáveis por este descalabro ao qual você tão eloquentemente se refere é o sistema de pontuação do Currículo Lattes, que pontua exlusivamente a quantidade. Artigos de duas páginas em risíveis revistas nacionais valem o mesmo que outros de vinte em revistas internacionais de altíssimo prestígio. Tenho o desprazer de conhecer profissionalmente uma pessoa, também ela chefe de departamento, que costuma computar entrevistas que realiza na revista que ela própria edita como "artigos", em seu Lattes. Tem vários artigos, esta pessoa. E por aí vai.
Nos concursos públicos para professor, similarmente, um diploma doutoral da Sorbonne vale o mesmo que um da universidade de Sorocaba (ou afins). Naturalmente, hoje em dia a maioria dos acadêmicos prefere realizar o doutorado no Brasil, aproveitando o tempo para costurar a armação do seu concurso, do que viajar para o exterior e fazer um doutorado sério (é como a dança das cadeiras; ausentar-se por quatro anos pode significar não ter onde sentar, quando acabar a música).
Caríssima Oriane, o panorama intelectual nacional é deprimente.