Monday, May 28, 2007

Que elite é esta? De volta à Língua de Pau...


As palavras têm um peso "x", uma vez esgotados os contextos em que se inserem. Nenhum dicionário, porém, pode dar conta das acepções que se multiplicam, dinamicamente, dia após dia. O vocabulário - o léxico - é a parte da Língua que anda a jato. O resto vai a pé, ou seja, modificações morfossintáticas são lentíssimas, quase insignificantes. Por um moticvo muito simples: a estrutura gramatical propriamente dita, o conjunto formado pela morfologia e pela sintaxe, é mero reflexo de uma outra estrutura, a que serve de arcabouço à expressão lingüísitca, a estrutura lógica na base do pensamento. Assim sendo, é claro que o que se entende como sistema gramatical, com seu cabedal de regras e paradigmas, não pode se curvar aos ataques irracionais dos que "acham" que podem reinventar a língua ao sabor da sua conveniência subjetiva, seu irraciuonalismo pedante. Uma língua "particular" não é uma língua, é um balbucio esquizofrênico, um nonsense travestido, às vezes, de vanguarda literária e porcarias do gênero.
Esse panorama surreal fica bem mais sombrio quando um determinado grupo se apossa desse furor revisionista e "reescreve" a Língua à sua maneira, não mais como um arroubo infanto-juvenil em nome do próprio umbigo narcisista, mas - o que é tremendamente perigoso - como propaganda ideológica deliberada, estratégia de conquista das massas via empulhação verbal.
A Língua de Pau, sobre a qual já falamos diversas vezes aqui, é uma dessas manobras semânticas insidiosas. Um clássico exemplo desse uso da novilíngua (By Orwell, in "1984": the newspeak...) é o estupro da palavra ELITE. Em seu nascedouro, ela significa "o que há de melhor"(o "crême de la crême", como diria a turma de Asterix). De repente, cumprindo o roteiro de uma propaganda minuciosamente arquitetada, os magos da "sociologia e da história" - com minúscula mesmo... - meteram as patas no dicionário e arrancaram da pobre palavrinha o seu traço de nobreza, transformando-a num reles sinônimo de "classe dominante, cheia da grana, que se locupleta no poder para chupar o sangue dos excluídos, blá-blá-blá...e toda aquela lenga-lenga marxistóide. Em suma: elite, que denotava uma coisa muito boa, virou uma "troço" detestável, com uma torpe conotação política.
Há várias perversidades nessa manobra, nítidos sintomas de uma sanha psicopatológica, típica da esquerdopatia. Em primeiro lugar, nega-se uma escala de valores, uma hierarquia natural, em que existem, necessariamente, os melhores e os piores de qualquer atividade humana - eis aí a instauração do tal "igualitarismo" em seu esplendor macabro, com toda sua carga de ressentimento, impotência e inveja subjacentes; em segundo lugar, a palavra abduzida retorna como um espectro opressor, um rótulo que pode ser pespegado em qualquer grupo de indivíduos que não reze pela cartilha "deles", ou seja, "elite", hoje, é o único fator responsável por todos os males do planeta.
O mais deprimente dessa autêntica descida aos infernos da Língua de Pau é que, na boca do Keiser, a pobrezinha virou "zelite", tornando-se uma piada estúpida, um vocábulo vagabundo, logo ela, que expressava a excelência das excelências... COMO RECUPERÁ-LA? Como evitar que seja enterrada, proscrita do seu contexto original? Só há um jeito: proclamando-a aos quatro ventos, energicamente, e, acima de tudo, ressuscitando o vocábulo que lhe faz nítido contraste semântico, a boa e velha ESCÓRIA, cujo sentido é "o que há de pior entre os piores"! Sim, o que temos em Banânia atualmente é a escória no poder, a escória nas artes, a escória na mídia, a escória embaixo da cama! Filosoficamente, se tivéssemos, de fato, uma ELITE no poder, este seria um outro país, com o lulopetismo em seu verdadeiro lugar: a lata de lixo onde se misturam todas os dejetos da História.

Marx, o Groucho

4 comments:

Stefano said...

Caro Groucho

A tragédia nacional é ter uma 'elite' tão ordinária e vulgar quanto o povão...

Walter Carrilho said...

Culpar a elite é a mesma coisa manobra de culpar a "sociedade": uma forma fácil de dizer que a culpa não é de ninguém. Logo, ninguém tem responsabilidade sobre nada.

PATRICIA M. said...

Eh Marx, so completando o pensamento do Stefano: ha elite nesse pais? Eu creio que nao. A elite no sentido exato da palavra, de creme de la creme, ja foi embora. So restou a escoria, e uns poucos malucos obstinados que teimam em tentar salvar o pais dele mesmo. Coisa de gente demente!

paulo said...

Sensacional, e muito oportuno!
Zelite parece conteúdo de Celite mesmo.
Só um reparo: Kaiser (Caeser)

Paulo Wengorski
Porto Alegre