Wednesday, May 23, 2007

Homeopatia como "método semântico"...

A batalha que se trava - e sempre se travou - pelo poder é quase cem por cento semântica porque o imaginário é construído, em grande parte, pelo discurso. É ele que impregna as mentes distraídas, formatando-as como um HD vadio. O que resta após essa insidiosa operação? Um monte de vírus bloqueando os processos mentais saudáveis. É simples assim. Um dezena de
cérebros dedicados à propaganda política perceberam a eficácia dessa manobra e, ato contínuo, trataram de passá-la didaticamente adiante, com propósitos de conquista ideológica, é claro. Qual seria o anti-vírus?
Ora, a única forma de boicotar essa estratégia é pelo método homeopático básico: palavrório neles! Por exemplo, toda vez que vier à baila uma conversa sobre comunas, devemos nos referir a eles, COM TODA A NATURALIDADE DO MUNDO, como fascistas e genocidas. Pespeguem o rótulo sem hesitar, falem como se isso fosse um ponto pacífico secular, sublinhem o enunciado como se tratasse de um axioma. Mostrem sua estranheza acerca do fato de existir um PCdoB no país, ao passo que não se pode cogitar a existência de um partido nazi em Banânia, não é mesmo? Afinal, são irmãos siameses, ora pois! Por que um pode e o outro, não?
Firmeza no olhar, segurança na entonação, desembaraço e clareza na verbalização et voilà! Na mosca.
Outro exemplo? Quando alguém elogiar o "grande arquiteto" Niemeyer (invariavelmente essa propaganda do cara está sempre colada em suas opiniões políticas deploráveis, o que não é mera coincidência, pois isso faz parte de um jogo subliminar, em que se tenta convencer os incautos por meio de uma falácia de autoridade, como se Pelé, o rei da bola, pudesse opinar sobre veterinária), pespegue, sempre, um comentário do tipo: "Parece que ele é ótimo nisso! Pena que seja, também, um fervoroso simpatizante de sistemas totalitários perversos... Ele só deveria abrir a boca para falar de arquitetura."
Quando o papo estiver rolando sobre cinema brasileiro, mostrem o quanto se desperdiçou o tutu do povo desdentado - "os excluídos" - ao se financiarem porcarias como "Olga" e "Diários da motocicleta", pura propaganda ideológica vagabunda. Se nenhum desses assuntos estiver em pauta, traga-os à luz vocês mesmos, com entusiastmo e total interesse. Falem da esquerdopatia como uma idiotice, uma aberração caricata, um ranço jurássico trazido das brumas do século dezenove por gente gagá e desinformada, seres que mal conseguem ler as orelhas de um livro porque são analfabetos funcionais. Taxem todo mundo de reaças, psicóticos, descerebrados, ignorantes, imbecis. Ou, melhor ainda, de mal-amados e invejosos, aqueles adjetivos gloriosos que às vezes fazem a festa da revista Caras quando o assunto é denegrir os famosos. Façam isso com convicção, ironia, assertividade máxima. A vacina para veneno de cobra é veneno de cobra.
A diferença fundamental, todavia, estará no fato de que os rótulos do lado de cá têm firmes nexos com o mundo real, enquanto os de lá, não. Essa é a grande diferença: eles mentem, nós, não; eles desqualificam, nós constatamos.
Por fim, fica-nos uma curiosa pulga atrás da orelha: qual será o raio de alcance de verdades veiculadas pelo mesmo sistema usado para difundir mentiras? O que prevalecerá na mente das pessoas? Em Banânia, as pessoas já estarão completamente fascinadas pela fantasia? A julgar pelos sintomas psicóticos que pipocam por aí, a probabilidade de a vaca ir para o brejo é altíssima...
Aceitam-se palpites!
Imagem: Christian Friedrich Samuel Hanneman (1755-1843), o pai da Homeopatia.

Marx, o Groucho

2 comments:

william said...

Há o risco de apanhar ao tentar seguir suas orientações... Quando a mentira não é mais sequer posta em dúvida, é preciso ter coragem para chocar e dar o verdadeiro nome às coisas. Mas somos corajosos, seguimos tentando.

Clau said...

Concordo com o William, a gente já vê uma fumacinha saindo dos ouvidos deles quando usamos esta linha.
Mas eu vibro, adoro quando eles perdem a linha..
Beijos