Tuesday, April 17, 2007

Sociedade do Espetáculo

Imagem: um dos livros da minha vida - A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord.

Esta semana havia uma longa discussão no jornal a respeito da carta de Du Moscovis sobre seu problema com fotógrafos e caçadores de celebridades. Sequer li a carta, não me interesso por estas coisas, mas adoro ler as cartas dos leitores do Globo. A maioria das cartas de outro dia era sobre esse assunto. Vários leitores se deram o trabalho de escrever para o jornal, se solidarizando com o ator.
Já escrevi aqui várias vezes sobre o culto às celebridades e o quanto isso era pernicioso. Fenômeno mundial, levou um historiador da arte (amiga historiadora e leitora do blog: atualize-me, pois esqueci quem era...) a afirmar: a contemporaneidade escolhe muito mal suas celebridades. Falava assim com base na grande celebridade da Renascença: Michelangelo, esse sim uma celebridade a ser admirada. As celebridades de hoje: Alemão, Luciana Gimenez, Latino...pessoas que mal falam português e provavelmente nunca leram um livro na vida.
Lembrei-me do excelente livro de Guy Debord: A Sociedade do Espetáculo. Nele Debord comenta que o espetáculo tomou tal dimensão que já não se pode separar o que é real do que é "espetáculo". Não se pode mais separar o que é arte, de verdade, e o que é apenas mídia. Também não se pode mais diferenciar um bom político do que é apenas um produto da mídia. A mídia toma conta de nossas vidas nos dizendo quem somos e o que fazer.
Já cansei de entrar em lojas onde a vendedora tenta me vender algo dizendo: todo mundo está usando. Para mim é a frase mágica, aí é que não compro mesmo! O que leva esta pessoa a crer que eu quero ser igual a todo mundo?
Por que existe esta cultura de massa? Não seria uma necessidade de se nivelar tudo por baixo para planificar o consumo? Venda em massa, essas coisas. O efeito colateral é essa bizarrice de celebridades. Quando jovem, adorava Caetano; hoje em dia o detesto, não por causa das músicas, mas pelo seu excesso de celebridade. Tudo se pergunta a Caetano, como se a opinião dele sobre economia fosse importante apenas porque ele é uma celebridade. Caetano entende de música, este é o ofício dele. Sua exposição na mídia faz com que aqueles que gostam de música possam detestá-lo, mesmo gostando da música dele.
Du Moscovis estava certo? Claro que sim, mas ele é fruto e faz parte desta estranha máquina de moer carne. Nada sei quanto ao seu talento, mas sua raiva deveria se voltar contra este bando de atores de malhação, ou gente recém-saída do BBB, que se deslumbra com essa idéia de ser celebridade e alimenta estes lixos. Adoram sair na Caras, na Quem etc. Alguns ligam para o jornal e avisam: vamos para lá etc...
Contra esses é que ele deveria se insurgir. E quanto às milhares de pessoas que consomem estas porcarias? São frustrados, com uma vida pobre e triste, porque precisam viver a vida de alguém para poder ter algo. É triste, principalmente se pensarmos que estas pessoas seriam muito mais felizes se fossem à biblioteca e pegassem um livro de graça para ler. Mais barato e eficiente do que uma revista de fofocas. Estes atores, que ganham fortunas por conta de sua celebridade, deveriam tentar emprestar sua imagem para estimular leituras e batalhar contra estas celebridades instantâneas que acabam transformando todos em farinha do mesmo saco. Será que a arte de Du Moscovis é melhor que a de Kleber Bambam? Provavelmente sim, então cabe a ele demonstrar como os Bambans da vida estão ajudando a enterrar a arte.
É só olhar a temporada atual de Malhação: os atores são tão ruins que até o público está reclamando. Vou tentar ver um dia desses para comentar, embora minha televisão não tenha antena: só serve para DVD. Para ver tv aberta tenho que fazer à moda antiga e usar um bombril em cima de uma antena velha. Trabalho demais para ver lixo. Mas estes atores estão lá por um motivo, são lindos, modelos, filhos de atores, amantes de diretores etc. Só isso os faz acreditar que podem ser atores. Mas não podem! E contra isso os atores deveriam se insurgir, como fez Fernanda Montenegro. São essas pessoas, em geral superficiais, ignorantes, que acreditam que a beleza é tudo, ou seja, que acreditam no poder do espetáculo enquanto espetáculo, sem talento ou trabalho, são elas que estão destruindo o trabalho dos verdadeiros atores. Estas pessoas são pouco melhores do que eletrodomésticos falantes, mas com uma cara lindinha.
Quem pode suportar exposição de pinturas de Jô Soares, Vera Fischer, enquanto tantos artistas sérios não têm onde expor? Quem pode suportar artistas que, por serem filhos de artistas famosos, conquistam espaço na mídia no lugar de tantos talentos que não têm QI?
"Sociedade do Espetáculo" é isso, uma perversão do que é a verdadeira arte, a aparência no lugar do conteúdo, a profundidade sendo descartada em favor do que é fácil de entender. A incapacidade de compreender mais do que três frases seguidas. As imagens tomando o lugar das palavras e um vocabulário que se reduz a cada dia. Atores medíocres que ganham dez vezes mais do que artistas de verdade.
Enfim, o fim de todas as nossas ilusões utópicas de uma cultura que possa produzir algo de bom.
Triste destino para nossa humanidade.

Oriane

3 comments:

PATRICIA M. said...

Oriane, eu se fosse voce nao iria me dar ao trabalho de assistir ao lixo da TV aberta apenas para comentar, hahaha. Voce eh muito corajosa!

amiga historiadora da arte said...

Oriane bela,
foi o grande Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas.
Pouco após a morte de Michelangelo, o artista e historiador da arte Giorgio Vasari profetizou que a cerimônia fúnebre em honra a Michelangelo “sarà cosa che né’ papi né gl’inperatori né’ re non l’ànno auta mai” (isto é, será algo que nem papas, nem imperadores, nem reis tenham tido jamais). E assim foi. Com perdão, permito-me transcrever abaixo uma passagem de um texto que escrevi sobre o epistolário do artista:


"Apesar da insistência com que neste período o duque Cosimo I Medici, freqüentemente através de Vasari, convida-o a restabelecer-se em Florença sob a sua proteção (cfr. cartas LVIII e LIX), as duas últimas décadas de vida de Michelangelo transcorrem quase ininterruptamente em Roma, onde mantém sua antiga casa em Macel de’ Corvi. Nestes anos, o artista é praticamente soterrado por encomendas artísticas, invariavelmente provenientes do papado ou das mais seletas casas nobiliárias romano-florentinas; paralelamente, realiza obras que presenteia a amigos ou que simplesmente conserva para si próprio. Sua fama cresce extraordinariamente a partir de meados dos anos 1540, assim como a admiração universal pela grandeza de sua obra; o apelativo "divino" -empregado pela primeira vez, salvo erro, por Ariosto em 1532 - tornara-se corrente na segunda metade dos anos 1540. Quaisquer opiniões de Michelangelo acerca da arte e de projetos artísticos, durante estas décadas, divulgam-se com uma celeridade inédita; copiam-se suas obras; suas rimas difundem-se; publicam-se, além das biografias de Vasari (torrentiniana) e Condivi, os escritos de Giannotti, Hollanda, Varchi e Doni; realizam-se diversos retratos seus , e os mais destacados personagens do âmbito político, artístico e religioso tanto italiano como estrangeiro alternam-se em visitá-lo e render-lhe hiperbólicas homenagens.
Não apenas suas obras, mas também sua vida é alçada ao palco: Buonarroti transforma-se,malgrado seu, em algo parecido ao que contemporaneamente chamaríamos “pessoa pública”, sendo seus atos constantemente escrutinados, suas decisões debatidas, suas preferências emuladas. Como um reflexo natural disto, a parte final do epistolário, tal como se o conhece atualmente, é a mais copiosa: qualquer missiva de Michelangelo, por insignificante que fosse, era guardada por seu destinatário como a mais preciosa relíquia . (...)
Imediatamente após sua morte, Fidelissimi escreve a Cosimo I informando-lhe acerca do sucedido e reiterando o desejo expresso por Michelangelo de ser sepultado em Florença; no dia seguinte Averardo Serristori, embaixador do duque, envia-lhe outra carta avisando-lhe que, já havendo sido inventariados seus bens em presença de Volterra e Cavalieri, não se encontrara nenhum dos desenhos que o duque esperava receber: “dicono che già abbruciò ciò che aveva”. Vasari conta como Leonardo, quem finalmente chegara a Roma no dia 21, conseguira secretamente trasladar o cadáver de Michelangelo - disfarçado, como uma mercadoria, no interior de uma caixa - a Florença, a fim de evitar os protestos dos romanos, que poderiam reclamar a honra de albergar seus restos mortais . O corpo chega a Florença no dia 10 de Março, supostamente incorrupto ; Vasari recebe-o na alfândega e, em nome da Accademia Fiorentina, coordena sua transferência primeiramente à Compagnia della Assunta, e, de lá, no dia 12, à Santa Croce – igreja que, como se sabe, albergava os restos de alguns dos mais ilustres cidadãos florentinos, constituindo uma espécie de equivalente ao Pantheon romano. Vasari conta que, tendo-se espalhado por Florença a notícia de que o cadáver de Michelangelo havia chegado à cidade e estava prestes a ser trasladado a Santa Croce, uma multidão acorreu a acompanhá-lo, de maneira que foi com dificuldade que se conseguiu transportá-lo ; uma vez lá, o corpo foi provisoriamente depositado em um jazigo, sobre o qual, ao longo dos dias sucessivos, afixaram-se inúmeros poemas latinos e vernáculos em honra ao mestre . Durante os quatro meses seguintes, organizar-se-iam, sob a supervisão de Vasari e do presidente honorário da Accademia, Vincenzo Borghini, as espetaculares exéquias de Michelangelo, as quais, inteiramente financiadas por Cosimo I e projetadas conjuntamente por Vasari, Bronzino, Cellini e Ammanati, se realizariam por fim no dia 14 de Julho em San Lorenzo, onde se encontrava a maior obra florentina de Buonarroti. Jamais um artista fora honrado com tanto fausto e pompa. A igreja, vestida de negro e albergando em sua nave um enorme catafalco atrás do qual erguia-se uma altíssima pirâmide de velas, encontrava-se abarrotada ao iniciar-se a cerimônia com um solene Réquiem; após a finalização da missa, Varchi pronunciou uma longuíssima oração fúnebre dividida, segundo o uso, em três partes, nas quais respectivamente louvava a perfeição de Michelangelo nas três artes, admirava sua vida e obra como poeta, filósofo e teólogo, e finalmente exortava os ouvintes a celebrar sua vida antes que lastimar sua morte. Em uma carta escrita ao duque Cosimo – quem não pôde comparecer à Igreja por não se encontrar em Florença naquele momento – no próprio dia 14, Vasari afirma que nunca anteriormente se haviam reunido tantos destacados artistas, juristas, nobres, políticos e letrados, como naquela ocasião."

Como diria o bom e velho Cícero:
o tempora, o mores...

Blogiana said...

Excelente texto. E concordo contigo, leitura enobrece e fortalece o cerebro. Mas N vezes mais facil sentar a bunda no sofa e desfrutar da vida alheia.

Abraco