Thursday, April 19, 2007

Michelangelo - a celebridade renascentista.

Imagem: Moisés de Michelangelo - seria mais uma obra inspirada no Laocoonte?

No post abaixo eu peço para minha amiga historiadora da arte que me lembre quem foi que disse que a contemporaneidade escolhe mal suas celebridades. Eis a resposta dela. Como ela já é quase um elemento do blog vou dar a ela, provisoriamente, o nome de Diotima...

Oriane bela,

foi o grande Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas.
Pouco após a morte de Michelangelo, o artista e historiador da arte Giorgio Vasari profetizou que a cerimônia fúnebre em honra a Michelangelo “sarà cosa che né’ papi né gl’inperatori né’ re non l’ànno auta mai” (isto é, será algo que nem papas, nem imperadores, nem reis tenham tido jamais). E assim foi. Com perdão, permito-me transcrever abaixo uma passagem de um texto que escrevi sobre o epistolário do artista:


"Apesar da insistência com que neste período o duque Cosimo I Medici, freqüentemente através de Vasari, convida-o a restabelecer-se em Florença sob a sua proteção (cfr. cartas LVIII e LIX), as duas últimas décadas de vida de Michelangelo transcorrem quase ininterruptamente em Roma, onde mantém sua antiga casa em Macel de’ Corvi. Nestes anos, o artista é praticamente soterrado por encomendas artísticas, invariavelmente provenientes do papado ou das mais seletas casas nobiliárias romano-florentinas; paralelamente, realiza obras que presenteia a amigos ou que simplesmente conserva para si próprio. Sua fama cresce extraordinariamente a partir de meados dos anos 1540, assim como a admiração universal pela grandeza de sua obra; o apelativo "divino" -empregado pela primeira vez, salvo erro, por Ariosto em 1532 - tornara-se corrente na segunda metade dos anos 1540. Quaisquer opiniões de Michelangelo acerca da arte e de projetos artísticos, durante estas décadas, divulgam-se com uma celeridade inédita; copiam-se suas obras; suas rimas difundem-se; publicam-se, além das biografias de Vasari (torrentiniana) e Condivi, os escritos de Giannotti, Hollanda, Varchi e Doni; realizam-se diversos retratos seus , e os mais destacados personagens do âmbito político, artístico e religioso tanto italiano como estrangeiro alternam-se em visitá-lo e render-lhe hiperbólicas homenagens.
Não apenas suas obras, mas também sua vida é alçada ao palco: Buonarroti transforma-se,malgrado seu, em algo parecido ao que contemporaneamente chamaríamos “pessoa pública”, sendo seus atos constantemente escrutinados, suas decisões debatidas, suas preferências emuladas. Como um reflexo natural disto, a parte final do epistolário, tal como se o conhece atualmente, é a mais copiosa: qualquer missiva de Michelangelo, por insignificante que fosse, era guardada por seu destinatário como a mais preciosa relíquia . (...)
Imediatamente após sua morte, Fidelissimi escreve a Cosimo I informando-lhe acerca do sucedido e reiterando o desejo expresso por Michelangelo de ser sepultado em Florença; no dia seguinte Averardo Serristori, embaixador do duque, envia-lhe outra carta avisando-lhe que, já havendo sido inventariados seus bens em presença de Volterra e Cavalieri, não se encontrara nenhum dos desenhos que o duque esperava receber: “dicono che già abbruciò ciò che aveva”. Vasari conta como Leonardo, quem finalmente chegara a Roma no dia 21, conseguira secretamente trasladar o cadáver de Michelangelo - disfarçado, como uma mercadoria, no interior de uma caixa - a Florença, a fim de evitar os protestos dos romanos, que poderiam reclamar a honra de albergar seus restos mortais . O corpo chega a Florença no dia 10 de Março, supostamente incorrupto ; Vasari recebe-o na alfândega e, em nome da Accademia Fiorentina, coordena sua transferência primeiramente à Compagnia della Assunta, e, de lá, no dia 12, à Santa Croce – igreja que, como se sabe, albergava os restos de alguns dos mais ilustres cidadãos florentinos, constituindo uma espécie de equivalente ao Pantheon romano. Vasari conta que, tendo-se espalhado por Florença a notícia de que o cadáver de Michelangelo havia chegado à cidade e estava prestes a ser trasladado a Santa Croce, uma multidão acorreu a acompanhá-lo, de maneira que foi com dificuldade que se conseguiu transportá-lo ; uma vez lá, o corpo foi provisoriamente depositado em um jazigo, sobre o qual, ao longo dos dias sucessivos, afixaram-se inúmeros poemas latinos e vernáculos em honra ao mestre . Durante os quatro meses seguintes, organizar-se-iam, sob a supervisão de Vasari e do presidente honorário da Accademia, Vincenzo Borghini, as espetaculares exéquias de Michelangelo, as quais, inteiramente financiadas por Cosimo I e projetadas conjuntamente por Vasari, Bronzino, Cellini e Ammanati, se realizariam por fim no dia 14 de Julho em San Lorenzo, onde se encontrava a maior obra florentina de Buonarroti. Jamais um artista fora honrado com tanto fausto e pompa. A igreja, vestida de negro e albergando em sua nave um enorme catafalco atrás do qual erguia-se uma altíssima pirâmide de velas, encontrava-se abarrotada ao iniciar-se a cerimônia com um solene Réquiem; após a finalização da missa, Varchi pronunciou uma longuíssima oração fúnebre dividida, segundo o uso, em três partes, nas quais respectivamente louvava a perfeição de Michelangelo nas três artes, admirava sua vida e obra como poeta, filósofo e teólogo, e finalmente exortava os ouvintes a celebrar sua vida antes que lastimar sua morte. Em uma carta escrita ao duque Cosimo – quem não pôde comparecer à Igreja por não se encontrar em Florença naquele momento – no próprio dia 14, Vasari afirma que nunca anteriormente se haviam reunido tantos destacados artistas, juristas, nobres, políticos e letrados, como naquela ocasião."

Como diria o bom e velho Cícero:
o tempora, o mores...

Diotima

1 comment:

Té la mà Maria said...

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Thank you very much for the visit

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Maria