Thursday, April 05, 2007

Noblesse oblige


Noblesse oblige é uma arte esquecida, arte para poucos. Aquele ato que é causado por um dever moral, nobre, uma gentileza interna que determina a razão. Arte dos que têm berço e cultura, coisas das quais, hoje em dia, somos instados a ter vergonha.Não tenho vergonha de meu berço, nem de minha cultura. Os adolescentes de hoje lêem Gossip Girls, na minha época líamos Eça e Dostoiévski. Noblesse oblige é deixar um idoso sentar no seu lugar espontaneamente, sem precisar de um aviso aos berros relembrando. Nunca consegui ficar sentada no metrô enquanto há um idoso em pé.
Nunca consegui ser grosseira com quem me ofendeu e pediu desculpas. A compreensão também é noblesse oblige. Compreensão, generosidade, etiqueta, artes perdidas na terra da "farinha pouca meu angu primeiro". Pessoas que vociferam por seus direitos tendem a esquecer o direito alheio. Na academia então, tenho visto vilanias inacreditáveis! Alguém é convidado para escrever um artigo ( acadêmicos em início de carreira se estapeiam por artigos) que não é sua especialidade, tem um amigo naquela especialidade e esconde deste amigo. Escreve um artigo porcaria só para dizer que escreveu. Alguns colegas escrevem um artigo e mudam o título, oferecendo-o a vários veículos diferentes. Este é o mundo dos "espertos", um mundo onde absolutamente tudo é nivelado por baixo.
Estes vociferantes de plantão costumam achar que educação é coisa da Zelite, ou mesmo que é uma arte que deve ser abolida. Faz sentido, a educação, a noblesse oblige, não traz vantagens imediatas para ninguém, é uma satisfação interna de quem procura estar bem consigo e com os outros. No mundo do egoísmo, é abolido o senso de pensar-se no outro. A afeição, tomar a face do outro, perde o sentido na razão em que o eu deve prevalecer na qualidade de ente competitivo.
Como já disse, tenho orgulho do meu berço, da minha história, da nobreza. Hoje em dia ter orgulho disso é considerado politicamente incorreto. Pois é, sempre fui politicamente incorreta e também me orgulho disso.
Abaixo a grosseria e viva o bom, o bem e o belo!Se preciso, ainda morrerei pela minha nobreza, algo pelo qual ainda vale a pena morrer.

Oriane - Duquesa de Guermantes

4 comments:

Serjão said...

Cara duquesa

O único sonho de consumo (se é que se pode considerar isso consumo) é viver longe de uma grande cidade. Talvez no interior estes gestos mais nobres possam ser redescobertos. Pelo mesnos é o que eu espero.

Que vc tenha uma ótima páscoa.

Paulo X said...

Cara Duquesa,

A senhora esqueceu de mencionar aquelas pessoas que, por alguma deficiência auditiva, passam, às vezes de madrugada, com o som do carro em altíssimo volume, como se apenas elas existissem no mundo.

Esse é outro sinal de barbárie em nossos dias.

PATRICIA M. said...

Adorei esse seu texto. Falta muita educacao mesmo no mundo. Principalmente nas cidades maiores. Em cidades pequenas, isso ainda existe.

Em Austin - TX, cidade de 1 milhao de habitantes, eh comum ser cumprimentado pelo motorista de onibus, por transeuntes que cruzam com voce na rua, e por ai vai. Chega a ser divertido, para quem esta acostumado a olhar feio para a pessoa que entra no mesmo elevador que voce. E posso dizer uma coisa? Acaba que morando muito tempo em cidade grande, voce acha que falta de educacao eh normal... Triste.

Anonymous said...

Bela Oriane,
uma vez ouvi uma colega de departamento bradar o seguinte pelos corredores universitários: "sou grossa sim, e com orgulho!". A essa mesma colega, certa vez, comprei um pacote de biscoito no intervalo de uma reunião. Nós geralmente fazemos assim: nos intervalos das reuniões, algum professor se prontifica a ir comprar água, biscoitos, etc. Quando o professor em questão volta com os víveres, os colegas fazem o gesto de pagar-lhe, e ele ou ela sempre diz : "Por favor, não precisa, na próxima vocês pagam", e esse tipo de fórmulas. Naquele dia, fui eu a que se prontificou a comprar, e ela me encarregou um pacote de biscoitos. Voltei com o dito cujo, que ela devorou entre grunhidos, sem contudo fazer o gesto simbólico de pagar. No dia seguinte, ela me disse: "desculpe, não paguei o biscoito". Sei que, se eu fosse realmente educada, deveria simplesmente ter dito: "Não importa, na próxima você etc etc", mas não resisti e disse-lhe: "Fulana, o grave não foi não ter pago; o grave foi você não ter oferecido nenhum a mim ou aos demais". Eu realmente acho que a boa educação, a nobreza, a finesse, são como a percepção das cores ou das notas musicais. Alguns simplesmente não conseguem diferenciar um dó de um fá; outros são daltônicos. A verdadeira nobreza é aquela que persiste mesmo em meio ao império da grosseria. Como dizia Nietzsche:
"Podem me tratar vilmente, mas não podem me envilecer".
Beijos minha bela.