Sunday, January 14, 2007

A via crucis de Ali Kamel

Querem que a gente se comporte como "cidadão", tiram nosso dinheiro na marra - em nome de um fajuto "bem-estar social -, fazem de Brasília um prostíbulo mal administrado, seqüestram a inteligência nacional a partir de lavagem cerebral midiática e "educacional", solapam todas as instituições democráticas, manipulam e compram as consciências generosamente disponíveis, massacram cotidianamente as pessoas que realmente trabalham, produzindo algo que preste, como o jornalista Ali Kamel - um dos raros seres "globais" que apresentam traços de normalidade psíquica - e ninguém RECLAMA!!! Asco!
Dêem uma olhada na inacreditável epopéia por que passou Ali Kamel (artigo: "Estado e cidadão", de 09/01/07, O Globo), no melhor estilo kafkniano, na tentativa de viajar com a mulher e as enteadas. A burrocracia quase impediu seu intento, a aflição foi enorme e o saldo ficou por conta da monótona constatação de sempre: isto aqui "NÃO É UM PAÍS SÉRIO"!
Enquanto isso, no lado negro de Banânia, todas as fraudes, todas as mentiras, todos os assaltos ao erário caem no olvido. O que importa é atrapalhar a vida das pessoas honestas. Motivo? Mero sadismo compensatório...
Leiam a via crucis do jornalista, resumida, porque é inviável fazer um link para o artigo no Globo, tal a complicação.

Com viagem marcada para as 23:00h, em o3/o1/o7, Ali Kamel, com medo da Linha Vermelha, saiu de casa - paranoicamente! - às 19:30h. No check-in, a bomba: pediram a autorização do pai das meninas para viajar. A agência de viagem informou que o genitor teria de fazer a autorização pessoalmente. Pois bem, o cara foi ao aeroporto prontamente, mas um funcionário da companhia aérea sugeriu que a Polícia Federal arbitrasse sobre o assunto: uma autorização pessoal valeria ou não? Já em clima de angústia total, os viajantes souberam que era necessária uma autorização escrita e com firma reconhecida! Bem, o pai estava lá e poderia escrever a autorização, não é mesmo? Sim, mas e o cartório para reconhecimento da firma? Informados sobre um cartório próximo, descobriram que não havia plantão no dito cujo, é óbvio! Por sorte, uma santa alma ouviu a história de terror e indicou um cartório que certamente estaria de plantão, no centro da cidade. Correram para lá às 21:30h, sendo informados de que o procedimento demoraria meia hora, tempo suficiente para a perda do vôo. Por conta disso, imploraram inúmeras vezes para serem recebidos pelo comissário, "que não poderia ser incomodado". Depois de, finalmente, serem atendidos, descobriram que um promotor teria - AINDA! - de dar um parecer que SERIA SUBMETIDO à decisão da juíza! A essa altura, o agente de viagens informava que estava tentando segurar o vôo mas que eles teriam de sair imediatamente para chegar a tempo de embarcar. Arrancando os cabelos, imploraram novamente pela agilidade do promotor, o que só conseguiram por meio de um funcionário mais compreensivo. Às 22:10h o promotor, que já havia redigido o tal parecer, resolveu mostrar a cara, com o intuito de fazer perguntas idiotas, tais como: por que as meninas tinham o sobrenome do pai e da mãe? Por que a mãe não tinha o nome do pai das meninas? Por que o pai se declarou divorciado, enquanto a mãe se dizia casada? O amigo de Kamel, pai das meninas, respondeu sucintamente: porque elas são nossas filhas, porque sou divorciado, porque ela se casou novamente.
O promotor teve a audácia de se explicar: "Ah, eu imaginei, mas me aconselhei com a juíza e achei por bem perguntar."
Às 22:30h, conseguiram sair em disparada para o aeroporto. Cruzaram a Perimetral e a Linha Vermelha, milagrosamente, em tempo recorde, entrando no avião às 23:10h!
Não é estarrecedor?

Imagem: O Cristo de El Greco, em plena forma...

Marx, o Groucho - com o saco na Lua.

3 comments:

william said...

Sabe como é... a gente precisa da tutela do Estado, senão todas as nossas mães vão fugir do país com as suas filhas. E é claro que a autorização do pai não podia ser suficiente, afinal, quem é o pai para conhecer as más intenções ocultas da ex-mulher? Mulheres figem muito bem, os homens são enganados o tempo inteiro. Por isso, precisamos de promotores e juízes de plantão que, interrogando as maldosas mães, descubram suas reais e nefastas intenções. Só porcos-capitalistas-burgueses-fascistas-reacionários-neoliberias não entendem isso.

Claudia said...

Marx, nem tudo está perdido: dê uma olhada lá em casa no post sobre os bichinhos adotados.

Ainda tem muita gente legal nesse mundo - thank God...

Beijos e bom domingo

Anonymous said...

Caros,
acho que um dos maiores males da burocracia brasileira atual são os tais "pareceres".
Na universidade onde trabalho - e da qual estou, presentemente, afastada - vem se derenrolando uma "via crucis" semelhante a do laocoontiano El Greco que você reproduz.
Em outubro de 2005 (!!!) entrei com pedido de contratação para uma professora visitante, uma mulher brilhante, italiana, com PhD na França (orientada por Damisch e co-orientada por Eco,nada menos), com pos-doutoramentos no Mexico, Bélgica e Dinamarca, e atualmente professora pesquisadora na Suiça. O pedido foi aprovado internamente (isto é, em nosso departamento e instituto) e os organismos competentes da própria universidade aprovaram sua contratação por 2 anos em Março de 2006, com início no segundo semestre. Agora bem: a professora é italiana, precisa de um visto de trabalho. Em um mundo ideal, não deveria haver barreiras de nacionalidade na academia. Somos todos estudiosos, o intercâmbio é necessário, e a nacionalidade deveria ser algo totalmente irrelevante e indiferente, no momento de contratar ou não alguém. Quando fazia meu PhD na Europa (Alemanha), pude constatar que, apesar da xenofobia teutônica, um acadêmico não encontra maiores dificuldades para estudar, trabalhar ou pesquisar lá. Como o Brasil é um país tão maravilhoso que precisa se resguardar contra a entrada de pesquisadoras italianas com PhD na França, porém (todas devem estar querendo invadir-nos!), é claro que tanto a própria universidade (a posteriori) quando o ministério de trabalho criaram caso. Para começar, disseram que ela não falava o português suficientemente bem. Na Alemanha, escrevi minha tese em inglês; na Holanda, as aulas de mestrado são sempre ministradas em inglês, justamente para facilitar a circulação de alunos e favorecer o intercâmbio acadêmico. Mas é claro que, no Brasil, os estrangeiros têm que falar um portugês camoniano. Depois, ninguém sabia, ao certo, o que fazer. O ministério disse que a própria universidade deveria fazer o pedido de visto ao ministério, o qual, por sua vez, o enviaria à repartição consular brasileira em Roma - a qual, por sua vez, expediria um visto (temporário, já que para o definitivo teriamos que percorrer uma segunda via crucis). Mas quem deveria fazer o pedido, na universidade, a ser enviado ao ministério? Perplexidade. Ninguém sabia. Acho que perdi a conta da quantidade de portas em que bati, procurando "descobrir" uma forma de fazer o pedido chegar até o reitor. Dentro do departamento - que não me ajudou em nada - cheguei a ser acusada de tomar iniciativas sozinha, sem comunicar o departamento... Enlouquecedor. Finalmente - em dezembro do ano passado!!! - descobri que o processo da professora estava na mesa do reitor, mas que alguém tinha que fazer um PARECER sobre o visto! Isso, depois de a universidade ter aprovado o contrato da professora em março... Bem, em janeiro soubemos que o parecer foi feito, o reitor assinou o tal papel, mas agora é preciso enviá-lo a Brasília, sendo que o envio custa 101 reais. Ora, a universidade não pode gastar 100 reais, assim, sem mais nem menos. Eu disse que pagava. A Professora, consideravelmente angustiada, disse que pagava. 100 reais. Mas nada pode ser tão simples. Como a universidade é muito honesta, muito transparente, os 100 reais não podem vir do bolsinho de ninguém. Não. A própria universidade paga. Mas qual órgão, dentro da universidade? Outra reunião de departamento. E pasmem: outro PARECER. Enfim, acho que, nesta via crucis, ainda não se vê o Golgotha.
Beijos!