Thursday, January 18, 2007

Ode ao silêncio


Solidão e silêncio. Assim esta vida seria BOOOOOOOAAA!Esse é o primeiro passo para a lucidez. Não é à toa que a turma de antanho gostava de se isolar nas montanhas ou iam brincar de Robinson Crusoé, perdendo-se, de propósito, em ilhas fora do mapa. Os neuróticos modernos produzem ruído sem parar por uma compulsão típica de quem tem horror à pausa. Isso mesmo, à pausa, ao intervalo, ao fundo que molda a figura, à raiz de todas as coisas. Tivemos na família uma pianista. Só não foi famosa - chovia convite para tocar no exterior - porque largou tudo para cuidar do marido e dos filhos, uma opção que, hoje em dia, a teria condenado ao inferno. Pois bem, ela nos dizia, candidamente, que fazer música é... saber ouvir o silêncio! O que acontece entre as notas é tão importante quanto a emissão do som. Música, é pois, o conjunto perceptivo dos intervalos sonoros.
No budismo zen há várias referências à fertilidade desse contato, dessa sintonia, absolutamente sine qua non, com a ausência, a não-forma, a não-mente: esse é o vazio fértil que se opõe à cinzenta depressão do niilismo doentio.
É desesperador perceber que as pessoas estão megulhando de cabeça, há anos, no pântano do atordoamento, na voracidade da superexposição, na hipnose do ruído sem fim, na verborragia sem estancamento possível. Ninguém consegue ficar sozinho e calado, os jovens entram em pânico se seus celulares não tocam de quinze em quinze minutos. As empregadas e porteiros arrancam os cabelos sem os seus radinhos poluentes. Os restaurantes exibem televisões fazendo barulho de fundo enquanto os zumbis-fregueses tentam saborear (???) a comida mal mastigada, fazendo, é óbvio, muitos zumbidos... Crianças não sabem brincar sem dar gritos que estouram decibéis, chamando pirracentamente a atenção de todos, como se fossem seres invisíveis. Detalhe: eles são!
Não há existência sem silêncio. Portanto, seguindo a implacável regra do silogismo, estamos todos mortos...

Esse texto é uma homenagem à Oriane e a todos que estão enlouquecendo com o barulho que nos sufoca.

Marx, o Groucho - planejando o assassinato de vizinhos ruidosos.

1 comment:

Claudia said...

quer mais alguém para entrar nesse bando de 'assassinos'?

eu topo...

PS. oriane, ainda estamos nos organiando, sabe como é um mora aqui, outro em Itú, outro em Ribeirão Preto, outro em Goiânia...

acho que vc poderia colaborar com seus bons textos - vc e Marx

Bjs