Wednesday, January 24, 2007

Para que, afinal, ler Orlando?


A situação é caótica, a abdução parece que vai longe. Alunos de classe média carioca, instados a comentar, analisar, - simplesmente opinar! - criticar um texto, costumam fazer o seguinte: resumem, mal e porcamente, o que leram (?), entre solavancos, espasmos e lacunas verbais gigantescas. Deu para entender? Sse você pedir a um deles para dizer algo, de sua própria lavra, sobre, por exemplo, o livro Orlando, de Virgina Woolf, ele incorpora o espírito de Zé Carioca e dispara: É a história de um cara que virou mulher no meio do livro e viveu vários séculos! É uma coisa maluca, este livro. E o cara era gay!
Nas asas da esperança, caprichando na boa vontade professoral, você volta à carga: "Não, não quero que me conte o que acontece, quero saber o que sentiu ao longo da narrativa, que pensamentos teve a partir da leitura, que idéias lhe trouxeram os aspectos simbólicos da obra etc."
Após um mutismo constrangedor e não antes de um esgar de doloroso enfado no rosto da torturada vítima, a resposta é cuspida assim: Olha, o cara era um nobre inglês afeminado, paquerou uma russa, levou um superfora dela, ficou superdeprimido e... não me lembro bem do resto! Acho que viajou para superlonge!
A essa altura do drama, um colega qualquer - em geral, uma moça arrebitada - mete a mão na massa, tentando melhorar a cena: Ele vira ela quando volta do Oriente! É isso que é importante!
Sentiram o caos? Parece um hospício. Eles não entendem o sentido denotativo do que lêem, quanto mais o conotativo! O professor quase sempre é obrigado a explicar várias vezes a mesma coisa, usando diferentes registros, dando exemplos os mais variados, louco para ver uma luz na escuridão. É difícil porque o vocabulário deles é pobre, a pressa é a marca registrada de todos os seus gestos, o foco mental NUNCA está onde deve estar, a capacidade de estabelecer relações lógicas um pouco mais complexas está perto de zero e qualquer esforço para superar esses problemas é encarado como uma imensa perda de tempo, um sacrifício insano. Afinal, para que serve ler "isso", não é mesmo? Há coisas tão mais úteis! Coisas que são lidas com o pé nas costas, coisas fáceis, digestivas, coisas que eles já sabem. Aprender é isso, girar em círculos sem sair do lugar, repetir o que, milagrosamente, já se sabe! Já se sabe, já se sabe, já se sabe... Que saco, que sono, que chatice ter de estudar...
Ah, também ocorre o inverso: quando se pede que façam, finalmente, um resumo, eles, só para contrariar, opinam! Em geral, essas opiniões são um amontoado de clichês mal alinhavados, pálidas cópias das palavras de alguém que falou sobre o mesmo assunto num programa de TV - daqueles que fazem picadinho de entrevistas com espevitados "intelequituais" tupinicóides, embrulham e mandam ... -, sei lá quando, não me lembro bem... Ai, que preguiça!

Marx, o Groucho

1 comment:

Claudia said...

Marx, vc conhece um livro chamado 'Educação pelo argumento', de Gustavo Bernardo?

Consigo ver seu desespero, vã tentativa de diálogo com essa geração internet.
Eles não pensam mais, não têm capacidade argumentativa, não têm senso crítico, não conseguem interpretar um texto, só fazem copiar da internet...

Vazio total.
Triste ser professor hoje em dia.

Beijos