Saturday, December 16, 2006

A mixórdia como método


O trabalho de sapa feito pela turma que adota a metodologia de Gramsci, mutatis mutandis, teve um efeito devastador na cultura brasileira. Aí está o nó górdio da questão ou, pelo menos, um fator fundamental. É assustador o que se tem feito nessa área nas últimas décadas: todas as classes sociais se igualam no quesito fragmentação lingüística, pois a capacidade de pensar dessas pessoas foi destruída na raiz na precisa hora em que entraram na escola. Não importa a origem social do estudante, quase todos - as exceções são pequenos oásis de esperança - estão lobotomizados graças à esmagadora preponderância de discursos “relativistas” e “pós-modernistas”, uma mixórdia imbecilizante que, por não fazer sentido algum, torna-se uma carapaça mental iimpenetrável a qualquer coisa que lembre um esforço inteligente em busca do conhecimento autêntico.
Esse tipo de “educação" é uma vacina contra tentativas externas de estabelecer um processo em que haja uma concatenação mínima de idéias, um esforço metódico que vise a uma reflexão que se possa chamar dde “lógica”. Ela antecipa necessariamente a etapa de reeducação citada por Orwell em 1984, na qual, sem maior resistência do educando, ensina-se ao infeliz futuro zumbi um discurso-clichê que faz as vezes de uma ilusória identidade verbal, exatamente aquilo que se chama, biblicamente, de texto da legião. Trata-se de um script que só é possível impor às pessoas se elas já estiverem com as operações cognitivas fragilizadas, devido ao entorpecimentpo de determinadas funções psíquicas por meio da imposição de simulacros que se assemelhem às atividades realmente eficientes para o desenvolvimento do intelecto, malévola operação pedagógica que, curiosamente, pode ser explicada pela máxima popular do se não tem tu, vai tu mesmo. Como produto dessa formidável hipnose, instala-se o caos onde deveria haver uma estrutura racional. Ora, lembremos que o perfeito simulacro do simbólico é... o diabólico. Ersatz...
Em suma, trata-se de um método assaz eficaz, cujo ponto de partida é a lei da inércia, fato facilmente observado em sala de aula: o aluno, por exemplo, que acha ótimo copiar qualquer coisa que tenha lido numa pesquisa na internet, sem nenhum esforço de triagem intelectual, já passou cum laudem pela etapa dessa "petrificação estrutural". Ele está pronto para rejeitar qualquer texto que o obrigue a mais de dois minutos de atenção. Reparem: a resistência à reflexão, criada pelo supradito simulacro de racionalidade, se caracteriza exatamente pela imobilidade, passividade ou preguiça mental, condições típicas de um estado de desagregação psíquica, marcado por reações padronizadas, jamais por ações singulares: o caos que se instala nessa circunstância específica é gerador de estagnação mental porque nele não existem pontos de referência que balizem um percurso significativo. O aluno “caótico” é, portanto, um protopapagaio militante, convicto de que entendeu tudo o que há para ser entendido: ele está prontinho para, por exemplo, confundir assertividade com agressividade, crime com erro e GARIBALDI com o BALDE DO GARI...
Esse ser, que trabalha no piloto automático, não distingue diferenças, por mais gritantes que sejam - a conseqüência imediata disso é a impossibilidade de estabelecer hierarquias de qualquer tipo -, tem um vocabulário paupérrimo e um nível baixíssimo de autoconsciência, sendo, exatamente por isso, uma presa fácil para a manipulação totalitária.
No âmbito da política, se esperteza é o máximo que essa criatura percebe como algo que se aproxime de inteligência, é fácil entender que, pelo mesmo mecanismo diabólico, mas agora sob a máscara de uma “moralidade possível”, sua percepção de atos corruptos pode produzir uma leitura monstruosa em que a diferença entre "honestidade" e “corrupção” seja neutralizada num umbral qualquer do emaranhado psíquico onde tudo é... o mesmo! Ou seja, de um ponto de vista mentalmente saudável, NÃO há escolha possível entre coisas que se confundem numa massa amorfa, na qual os significados originais se pervertem sob o jugo de um pragmatismo político em plantão permanente.
Um último detalhe: o povo menos escolarizado, que não foi ainda atingido pelas manobras “educativas” descritas acima, tem muito mais chance, pela graça arquetípica do senso comum, de identificar diferenças conceituais do que aqueles que tiveram a bênção escolar gramsciana. Portanto, o perigo hoje - PASMEM! - está muito mais em ir à escola do que ficar fora dela! Há mais chance de se mudar a opinião de um indivíduo-bolsa-família do que a de um cara de classe média, pós-graduado em escolha-você-mesmo-o-sabor.
That’s all, folks!

Imagem: Pirates of Ersatz , de Frank Kelly Freas.

Marx, o Groucho

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1 comment:

Claudia said...

Marx, você conhece o problema como professora. Eu conheço como aluna - voltei a estudar depois dos 30 e fiquei impressionada com a falta de capacidade argumentativa dos jovens estudantes de RI.
Estou deveras triste com o caminho de nossa pátria. Estamos descendo a ladeira, sem freios e sem esperança.
E, se me permite mais uma vez, gostaria de publicar seu texto lá em casa.
Me avise, ok?
Beijos em todos (felinos inclusos) :-)