Friday, February 16, 2007

Perdida na guerra, o que pensar?


Menino dormindo na rua: claro que ele também é vítima, não pediu para nascer. Deve ter uns dez irmãos, vítimas como ele. Mas nem todos viram monstros. O fato de ser uma vítima da sociedade exime a culpa de alguém? E se esse alguém for muito cruel como o tal Champinha, fazer o quê? Passar a mão na cabeça? E nós, que lutamos e pagamos impostos, fazemos o quê? Somos nós os culpados? Se vocês querem saber mais sobre o Champinha, leiam esta notícia.

Apesar de anarquista, sou católica convicta, daquelas que pedem a volta da Missa Tridentina. Sabe como é: padre falando em Latim e de costas...
Começo dizendo isso porque preciso discordar da minha Igreja. Sei que a Igreja não concorda com o controle da natalidade, pois seria uma forma de avalizar a sacanagem geral. Mas creio que agora, como se diz, "Inês é morta". Se algo não for feito em termos de conter a explosão populacional das classes pobres não haverá como viver em cidades como o Rio. São legiões de crianças que foram criadas sem pai nem mãe, perambulando nas ruas, nascidas de pais que não tinham condições financeiras e psicológicas de criá-los. Pessoas que têm filhos até com doze anos, que aos vinte já têm uns três ou quatro filhos e, ao final, não sabem dizer quantos são. É só assistir ao documentário "Notícias de uma guerra particular" do João Moreira Salles. Lá um menino internado nesses centros de infratores fala da mãe: "ela teve lá os filhos dela, uns sete ou oito, vendeu alguns e batia nos outros. Eu fugi porque não aguentava mais apanhar. Estou na rua desde os cinco...".
Chocante não? Eu sinto compaixão, mas também sinto pena de gente como nós, classe média que não pode ter carro blindado, que anda de ônibus, que cruza na rua com os Champinha da vida...
Entretanto, por mais raiva que sinta, não deixo de sentir compaixão e mesmo ter uma certa compreensão: como adolescentes que foram abandonados por família e Estado vão aprender a respeitar a vida do outro? Suas próprias vidas não foram respeitadas. Eles são ninguém e é muito duro não ser ninguém. Ninguém que os ame, nenhum direito, uma vida sem nenhuma perspectiva. O que se pode esperar de alguém assim? Eu entendo a armadilha contida nessa situação: é difícil punir alguém que sempre foi uma vítima. Mas, por outro lado, há uma sociedade a ser protegida, mesmo com sua parcela de culpa, pois caso contrário acabaria fadada ao extermínio. Se já chegamos ao ponto de nos matarmos uns aos outros sem nenhuma pena, já chegamos à barbárie. Eu sei, pois quantas vezes não vejo esses adolescentes pardos, pobres e sinto ódio. Ódio pela forma como falam, errada, mole, raiva da cara deles, aquela cara de pobre. E por quê? Por que mancham minha cidade? Por que são brasileiros como eu? Por que me vejo neles? Por que sinto esse ódio afinal? Seriam eles fruto de algum descaso meu? No fim de tudo eu sei que acabei nascendo no lado que teve sorte. Tenho raiva porque "essa gente"( é como eu falo, tipo Odete Roitman) fala alto, mas eles falam alto porque ninguém os ouve. Eles não têm voz. Dever ser muito triste e difícil viver assim.
Sempre me senti mais identificada com a direita, com os nobres, mas tenho sentido um certo desconforto por isso. Uma vaga sensação de que, além de minoria, eu estou sendo egoísta. Não tenho direito de sentir tanto ódio. Não uma vez tendo tido tanta sorte na vida. Mas por outro lado tenho horror àqueles moderninhos que vão para o Forum Social Mundial, acho todos uns idiotas. Também não saio feito uma retardada pedindo paz depois de um crime horrível. Sei muito bem que os bandidos vão rir de mim. Votei pela manutenção hipotética (graças ao estatuto do desarmamento) do direito de ter armas. Não vou sair por aí pedindo paz, nem pagando o mico de abraçar a Lagoa, ou algo assim. Ainda estamos em guerra, nosso lado contra o deles, não é assim que eu quero morrer. Não vou virar uma militante do PSTU nem vou entrar para uma ONG. Prometo não me tornar uma chata.
Mas tenho sentido esta compaixão. Compaixão misturada com ódio. Mais dez anos de análise por causa da violência do Rio.
Mas sim: ainda sou a favor da redução da maioridade penal, prisão perpétua tanto para a Richthofen quanto para o Champinha, remoção ou contenção das favelas, e de educação e planejamento familiar como soluções.
Mas agora, neste exato momento, o que é o certo afinal? Prender? Executar? Esses dias me imaginei linchando esses caras? Alguém concebe horror maior?
Vocês sabem o quanto sou impiedosa, os que lêem este blog sabe que não faço concessões ao pensamento dominante, aquele misto de esquerdismo de butique com utopia de botequim. E não acho que o Emir sader seja uma criação da direita para que todos pensem que a esquerda é retardada. Eu acredito que ele existe e que acredita no que fala. Sinto bem mais raiva de gente como ele, o imperador dos esquerdistas de butique, que usa a miséria como forma de aparecer, como forma de "jogar para a galera" do que daqueles que ele diz defender. Pessoas como ele e o Lula são duplamente odiáveis por manipularem sentimentos que até seriam louváveis se não tivessem virado uma pálida imitação de solidariedade. Uma forma de ganhar à custa da miséria. Quanto aos moderninhos do Forum Social, na verdade essas pessoas gostam de festas de esquerda ( as do PT eram famosas nos anos 80), ir ao Forum Social para encontrar os amigos moderninhos, acampar e cantar "Travessia", pintar a cara e sair no Globo, ou quem sabe virar celebridade e adotar um africano. Não deixariam de comprar um jogo de computador para dar dinheiro ao orfanato. Assim como o "fenômeno OVNI" foi uma grande desserviço para a ciência séria que busca vida extraterrestre, também essas pessoas são um desastre para quem tem preocupações sociais verdadeiras, que extrapolam a idéia de que a culpa é da Zelite, para saber que a culpa é de todos.
O problema não é nem nunca foi político. É espiritual! Como ter um bilhão e dormir em paz sem dividir nada? Como ainda existem fazendas que usam trabalho escravo? Como ainda existem patrões que pagam uma miséria? Pagar pouco para a faxineira é ou não é explorar a miséria?
Como dormir sabendo que sinto ódio do Champinha? Como dormir sabendo que sinto ódio?
Vivo numa sociedade doente e estou doente.
Tenho pena do Champinha, tenho pena de nós, tenho pena do João Hélio, tenho pena daqueles que o mataram.
Estou perdida nessa guerra.

Oriane

2 comments:

Anonymous said...

Amigos,
Vivo atualmente no exterior, de onde costumo acompanhar as notícias sobre o Brasil através de jornais publicados em rede. Sofro sempre com a violência no Rio, mas acho que, talvez por ter duas filhas de idades próximas a de João Hélio, nunca um assassinato me abalou tanto. O dilema de afivelar ou não o cinto de segurança das meninas, quando estou no Rio, sempre esteve muito presente para mim. No fundo, acredito que nós, pais e mães, sofremos tanto com a morte de crianças inocentes por razões egoístas: é quase impossível deixar de pensar que poderia ser nosso filho ou filha nesta situação – pensamento esse, de resto, intolerável. Se quisermos ver as coisas por um prisma positivo, porém, podemos pensar que, quem tem filhos, de certa forma passa a amar todas as crianças, pois é seu próprio rebento que vê em todas elas. Na mesma semana em que João Hélio foi brutalmente torturado e assassinado, a UNICEF divulgou o resultado de uma ampla pesquisa sobre a qualidade de vida das crianças nos 21 países mais ricos do mundo. O primeiro colocado foi a Holanda, país onde resido neste momento, onde minhas filhas nasceram, onde freqüentam atualmente a escola. O relatório – que pode ser lido na íntegra na página da UNICEF -http://www.unicef-icdc.org/publications/pdf/rc7_eng.pdf – abre-se com uma frase que, acho, vale a pena citar aqui:

“The true measure of a nation’s standing is how well it attends to its children – their health and safety, their material security, their education and socialization, and their sense of being loved, valued, and included in the families and societies into which they are born.”

A pesquisa pauta-se por vários dos critérios mencionados acima, isto é, saúde, segurança, estabilidade financeira, educação, socialização, e – last but not least – seu “bem-estar subjetivo”. A Holanda não é o país mais rico de todos os 21 – aliás, Grã-Bretanha e Estados Unidos ficaram um último e penúltimo lugar – mas, quanto ao bem-estar subjetivo das crianças (como elas próximas dizem sentir-se; como é a relação com os familiares e amigos, etc), ficou na frente de todos. A partir da minha experiência aqui, posso dizer que entendo perfeitamente que a Holanda tenha sido a “primeira colocada”. Na escola da minha filha, nunca vi uma briga entre as crianças. Nunca vi ninguém ser chamado de gordo demais, magro demais, alto ou baixo ou narigudo ou orelhudo ou o que quer que seja. Nunca vi pais, mães ou professores baterem em seus filhos, e raramente vi algum deles levantar a voz. A partir dos 9 anos, as crianças vão sozinhas para a escola, muitas vezes em bicicletas com uma bandeirinha alta, cor de laranja, que todo motorista vê, reconhece e respeita. Todos abaixam a velocidade ao passar ao lado de uma criança de bicicleta. Minhas filhas não têm medo das pessoas. Quase nunca têm pesadelos; outro dia minha mais velha teve um sonho ruim, disse ela, com uma aranha envolta por uma ciranda de patas (ipsis litteris; ela é poética assim). São esses seus pesadelos; não ser seqüestradas, assaltadas, arrastadas por carros. Acho que uma possível explicação para isso é justamente o que Oriane apontou dias atrás: a tolerância. Na Holanda, você pode ser como quiser, vestir-se como quiser, ter a religião que quiser. Não é da conta dos demais. As melhores amigas da minha filha mais velha são, pasmem, uma menina judia e outra muçulmana (Sri Lanka). E minha menina é latina e filha de pais ateus. Ninguém tem problemas com isso. As três se adoram, aprendem sobre costumes e tradições umas das outras, conversam, riem. São felizes.
Eu sou carioca, e adoro o Rio. Mas essas duas notícias contemporâneas – a morte de João Hélio e o relatório da Unicef – fizeram-me decidir definitivamente que minhas filhas crescerão na Holanda. Eu seria uma criminosa se as tirasse daqui para colocá-las em uma cidade tão violenta, tão confusa e tão intolerante como o Rio. Por outro lado, ao alívio pela segurança delas abate-se uma melancolia imensa por pensar em todas as crianças que crescem na rua, como na foto que você reproduziu, e que são, talvez, os futuros Champinhas de amanhã. Não posso esquecer o dia em que, parando em um sinal do Flamengo, um menino de uns cinco, seis anos parou na frente do meu carro para fazer aqueles malabarismos que eles sabem fazer tão bem; ele estava descalço, como sempre estão, sozinho, e, antes de começar, levantou a blusa, como para mostrar-me que não estava armado. Eu lhe dei dinheiro o mais rápido que pude e desatei a chorar um choro que, internamente, persiste até agora em mim. Nós temos medo das nossas crianças, e elas sabem que nós as tememos. Tampouco posso esquecer o dia em que tinha minha filha mais velha no banco de trás do carro – a mais nova ainda não tinha nascido; meu marido ia atrás, com ela, e acabávamos de sair de uma festinha infantil em que uma animadora tinha pintado a carinha dela. Ela estava linda, com um vestido que minha amiga alemã mandou do México, destes bem coloridos, e com a carinha pintada como se fosse uma borboleta. Também em um sinal, uma menina que deveria ser um ou dois anos mais velha que ela apoiou-se no carro, procurando vender um doce; viu minha filha, e a expressão em seu rosto foi algo que se estampou para sempre em mim. Ela não estava com inveja, nem ciúmes: estava maravilhada, embevecida com aquela menina tão linda, com vestido mexicano e pintura de borboleta. Ela sorriu para minha filha.
Amigos, precisamos fazer algo por essas crianças. Ninguém merece nascer nestas circunstâncias, não ter nem sequer uma chance na vida. A única forma de interromper este ciclo vicioso em que estamos é investir na educação das crianças, educação em seu sentido lato, não somente a escola.
Saudades e beijos a todos...

Nina said...

Até quando assistiremos a classe togada, os magistrados que
não andam a pé nas ruas, permanecer covardemente entocada, sem reagir
unissonante contra o crime que avança, domina e vai tomando conta de todos

os setores da vida nacional?


OI