Wednesday, June 13, 2007

A torre do espírito

O texto abaixo é taoísta, tirado do livro A Via de Chuang-Tsu, de Thomas Merton, Editora Vozes, 1974. Para muitos, seu sentido é misterioso, esotérico. Para alguns, claro como água. Na verdade, trata-se de uma primorosa análise psicológica, uma ótima apresentação da nossa estrutura psiquíca com todos os meandros de seu funcionamento.
Reparem, por exemplo, na metáfora da torre e na citação das instâncias externa e interna, conceitos referentes a espaços onde acontecem coisas que afetam, de uma forma ou de outra, o cerne da alma, ou seja, o "eu". Há campos do saber que se dedicam exclusivamente ao estudo das esferas externas, ignorando por completo - às vezes, até rejeitando energicamente - a existência das esferas internas.
Na verdade, tal divisão é meramente didática. Para o taoísmo não há "dentro e fora", mas uma consciência que viaja por onde bem entende, focalizando as paisagens habitadas por entes de toda espécie, imunes à rotulação de abstratos e concretos, ideais e materiais e por aí afora, rotulações que só servem de suporte a uma organização intelectual, sem dúvida necessária num mundo rigorosamente verbal.
Essa febre de organização discursiva é típica, por exemplo, das lides filosóficas. Os filósofos costumam enveredar por questões embaraçosas, tentam respondê-las, ficam especulando ao redor de perguntas que, por vezes mal formuladas, restam sem nenhuma resposta decente, por motivos óbvios - por esse motivo é tão desconcertante conversar com pessoas desarticuladas. É impossível dialogar com elas. Ao mais, o que é pior, fica-se com a desagradável impressão de que nós é que estamos emburrecendo drasticamente ou enlouquecendo geral...
É contra esse perigo mental, o discurso, que desvia o "eu" de seu autêntico caminho, o percurso, que o taoísmo e o zen advertem ferozmente. Por outro lado, da mesma maneira, o foco excessivamente voltado para dentro costuma conduzir o indivíduo a perigosas travessias sem volta, tal qual uma espécie de vivência pré-psicótica, exatamente porque não se pode viver todo tempo nem como ostra deprimida precisando de Prozac nem como libélula histérica em busca de Valium.
Trocando em miúdos, o "eu" não pode parar em parte alguma. Não tem pouso, não tem onde ficar, é como o vento que, quando é preso à força em uma caixa, deixa de ser vento para ser ... ar parado!
Meditem:

A TORRE DO ESPÍRITO

O espírito possui uma torre inexpugnável
Que nenhum perigo ameaça
Desde que a torre esteja guardada
Pelo Protetor invisível
Que age sem saber e cujas ações
Perdem-se quando são deliberadas,
Reflexivas e intencionais.

O inconsciente
E toda a sinceridade do Tao
São perturbados por qualquer esforço
De demonstração autoconsciente,
Todas essas demonstrações
São mentirosas.

Quando nos exibimos
Dessa maneira ambígua
O mundo exterior explode
E nos aprisiona.

Não somos mais protegidos
Pela sinceridade do Tao.

Cada novo ato
É um novo erro.

Se os atos são públicos,
Feitos à luz do dia,
Seremos punidos pela humanidade.
Se são privados
E secretos,
Seremos punidos
Pelos espíritos.

Deixe cada um compreender
O sentido da sinceridade
E proteger-se contra o exibicionismo!

Ficará em paz
Com a humanidade e os espíritos
E agirá corretamente, desapercebido,
Em sua própria solidão,
Na torre do seu espírito.

Imagem: uma estampa de Chuang-Tsu, sonhando, provavelmente, com a célebre borboleta...

Marx, o Groucho

2 comments:

PATRICIA M. said...

Marx, interessantissimo. Podia postar mais textos filosoficos para a gente?

A Furiosa said...

Ok, Patrícia. Tenho muitos textos do gênero. Beijão!
Marx, o Groucho