Sunday, September 16, 2007

O país que virou piada ou o Abaporu íntimo de Banânia...


Era uma vez um país que virou piada. Começou como Terra de Santa Cruz e depois levou um pau-brasil no lombo, não se sabe bem por quê. A cipoada causou amnésia, a santa cruz foi esquecida de imediato e só sobrou o "brasil" do pau. Como a cor do tal pau era vermelha, os caras confundiram tudo e deram uma guinada à esquerda por questão de coerência cromática e respeito à semana de Arte Mais ou Menos Moderna (que gerou um bicho feio chamado Abaporu que, segundo a crítica erudita, inspirou o movimento antropofágico: trata-se daquele fenômeno antropológico em que o canibal acaba por comer a si próprio, por mera preguiça de procurar coisa melhor.)
Todavia, como os nativos já nasceram com óbvios problemas de visão, pintaram a bandeira de verde-amarelo e ficou por isso mesmo, embora ninguém tenha dúvidas quanto à cor local, pois nos dias de manifestação pública o tom predominante é mesmo o vermelhão do pau-brasil original, o que deixa os estrangeiros profundamentes intrigados.
O tempo passou - alguns curtos séculos- e a piada foi-se aperfeiçoando. Surgiu, por exemplo, a estorinha sobre Deus ter criado um certo país com mil maravilhas, esquecendo-se, porém, de caprichar nas pessoas que o povoariam - essa teria sido uma autêntica trapalhada divina.
Depois de muitas peripécias de péssima catadura histórica, o paiseco virou a Terra de Calheiros, após exemplar votação do Senado - pura inveja de um antigo anúncio de cigarro que falava orgulhosamente de uma "Terra de Marlboro", lá para o lado dos "americanu", esse povo horrível, execrável, perverso, nojento, atrasado e tudo mais, exatamente como todo devotado intelectual "brasilis" está cansado de ensinar aos fedelhos nacionais, com ótimos resultados pedagógicos.
Atualmente o país-piada está em vias de retornar ao ciclo monárquico, reinventando, inclusive, a época da escravatura explícita. Na verdade, os habitantes deste solo gentil estão todos com nostalgia de paulada no lombo, aquela lá do início, a que explica a confusão mental que sempre caracterizou as escolhas dessa curiosa sociedade de palhaços natimortos.
Argh!

Imagem: a obra que não ousa dizer seu nome, ou, ainda, o estado íntimo do país-piada após a absolvição de Renan Calheiros. (Reparem na cabeça do bicho, totalmente proporcional a seus neurônios reduzidos.)

Marx, o Groucho, bastante confuso.

5 comments:

Pedro Ivo Martins said...

Está difícil achar um blog com conteúdo original, interessante e inteligente como esse. Parabéns pelo trabalho.

David said...

Ótimo texto. Parabéns.

Ricardo Rayol said...

Isso que eu chamo de resumo bem feito da história do brasil

Frodo Balseiro said...

Gente indignada sempre escreve melhor que "aqueles que vão morrer te saudam"!
Muito bom mesmo!
Só esqueceu do Urucum que também é vermelhaão!

A Furiosa said...

É isso aí: indignação dá "asas", sem ser Redbull, hehehe...São tempos sombrios.
Abs a todos,
Marx, o Groucho