
Menino dormindo na rua: claro que ele também é vítima, não pediu para nascer. Deve ter uns dez irmãos, vítimas como ele. Mas nem todos viram monstros. O fato de ser uma vítima da sociedade exime a culpa de alguém? E se esse alguém for muito cruel como o tal Champinha, fazer o quê? Passar a mão na cabeça? E nós, que lutamos e pagamos impostos, fazemos o quê? Somos nós os culpados? Se vocês querem saber mais sobre o Champinha, leiam esta
notícia.
Apesar de anarquista, sou católica convicta, daquelas que pedem a volta da Missa Tridentina. Sabe como é: padre falando em Latim e de costas...
Começo dizendo isso porque preciso discordar da minha Igreja. Sei que a Igreja não concorda com o controle da natalidade, pois seria uma forma de avalizar a sacanagem geral. Mas creio que agora, como se diz, "Inês é morta". Se algo não for feito em termos de conter a explosão populacional das classes pobres não haverá como viver em cidades como o Rio. São legiões de crianças que foram criadas sem pai nem mãe, perambulando nas ruas, nascidas de pais que não tinham condições financeiras e psicológicas de criá-los. Pessoas que têm filhos até com doze anos, que aos vinte já têm uns três ou quatro filhos e, ao final, não sabem dizer quantos são. É só assistir ao documentário "Notícias de uma guerra particular" do João Moreira Salles. Lá um menino internado nesses centros de infratores fala da mãe: "ela teve lá os filhos dela, uns sete ou oito, vendeu alguns e batia nos outros. Eu fugi porque não aguentava mais apanhar. Estou na rua desde os cinco...".
Chocante não? Eu sinto compaixão, mas também sinto pena de gente como nós, classe média que não pode ter carro blindado, que anda de ônibus, que cruza na rua com os Champinha da vida...
Entretanto, por mais raiva que sinta, não deixo de sentir compaixão e mesmo ter uma certa compreensão: como adolescentes que foram abandonados por família e Estado vão aprender a respeitar a vida do outro? Suas próprias vidas não foram respeitadas. Eles são ninguém e é muito duro não ser ninguém. Ninguém que os ame, nenhum direito, uma vida sem nenhuma perspectiva. O que se pode esperar de alguém assim? Eu entendo a armadilha contida nessa situação: é difícil punir alguém que sempre foi uma vítima. Mas, por outro lado, há uma sociedade a ser protegida, mesmo com sua parcela de culpa, pois caso contrário acabaria fadada ao extermínio. Se já chegamos ao ponto de nos matarmos uns aos outros sem nenhuma pena, já chegamos à barbárie. Eu sei, pois quantas vezes não vejo esses adolescentes pardos, pobres e sinto ódio. Ódio pela forma como falam, errada, mole, raiva da cara deles, aquela cara de pobre. E por quê? Por que mancham minha cidade? Por que são brasileiros como eu? Por que me vejo neles? Por que sinto esse ódio afinal? Seriam eles fruto de algum descaso meu? No fim de tudo eu sei que acabei nascendo no lado que teve sorte. Tenho raiva porque "essa gente"( é como eu falo, tipo Odete Roitman) fala alto, mas eles falam alto porque ninguém os ouve. Eles não têm voz. Dever ser muito triste e difícil viver assim.
Sempre me senti mais identificada com a direita, com os nobres, mas tenho sentido um certo desconforto por isso. Uma vaga sensação de que, além de minoria, eu estou sendo egoísta. Não tenho direito de sentir tanto ódio. Não uma vez tendo tido tanta sorte na vida. Mas por outro lado tenho horror àqueles moderninhos que vão para o Forum Social Mundial, acho todos uns idiotas. Também não saio feito uma retardada pedindo paz depois de um crime horrível. Sei muito bem que os bandidos vão rir de mim. Votei pela manutenção hipotética (graças ao estatuto do desarmamento) do direito de ter armas. Não vou sair por aí pedindo paz, nem pagando o mico de abraçar a Lagoa, ou algo assim. Ainda estamos em guerra, nosso lado contra o deles, não é assim que eu quero morrer. Não vou virar uma militante do PSTU nem vou entrar para uma ONG. Prometo não me tornar uma chata.
Mas tenho sentido esta compaixão. Compaixão misturada com ódio. Mais dez anos de análise por causa da violência do Rio.
Mas sim: ainda sou a favor da redução da maioridade penal, prisão perpétua tanto para a Richthofen quanto para o Champinha, remoção ou contenção das favelas, e de educação e planejamento familiar como soluções.
Mas agora, neste exato momento, o que é o certo afinal? Prender? Executar? Esses dias me imaginei linchando esses caras? Alguém concebe horror maior?
Vocês sabem o quanto sou impiedosa, os que lêem este blog sabe que não faço concessões ao pensamento dominante, aquele misto de esquerdismo de butique com utopia de botequim. E não acho que o Emir sader seja uma criação da direita para que todos pensem que a esquerda é retardada. Eu acredito que ele existe e que acredita no que fala. Sinto bem mais raiva de gente como ele, o imperador dos esquerdistas de butique, que usa a miséria como forma de aparecer, como forma de "jogar para a galera" do que daqueles que ele diz defender. Pessoas como ele e o Lula são duplamente odiáveis por manipularem sentimentos que até seriam louváveis se não tivessem virado uma pálida imitação de solidariedade. Uma forma de ganhar à custa da miséria. Quanto aos moderninhos do Forum Social, na verdade essas pessoas gostam de festas de esquerda ( as do PT eram famosas nos anos 80), ir ao Forum Social para encontrar os amigos moderninhos, acampar e cantar "Travessia", pintar a cara e sair no Globo, ou quem sabe virar celebridade e adotar um africano. Não deixariam de comprar um jogo de computador para dar dinheiro ao orfanato. Assim como o "fenômeno OVNI" foi uma grande desserviço para a ciência séria que busca vida extraterrestre, também essas pessoas são um desastre para quem tem preocupações sociais verdadeiras, que extrapolam a idéia de que a culpa é da Zelite, para saber que a culpa é de todos.
O problema não é nem nunca foi político. É espiritual! Como ter um bilhão e dormir em paz sem dividir nada? Como ainda existem fazendas que usam trabalho escravo? Como ainda existem patrões que pagam uma miséria? Pagar pouco para a faxineira é ou não é explorar a miséria?
Como dormir sabendo que sinto ódio do Champinha? Como dormir sabendo que sinto ódio?
Vivo numa sociedade doente e estou doente.
Tenho pena do Champinha, tenho pena de nós, tenho pena do João Hélio, tenho pena daqueles que o mataram.
Estou perdida nessa guerra.
Oriane